Rejeição ou suposição? Como lidar com a suposta rejeição nas relações

Quem nunca se deparou com o sentimento de rejeição em algum momento da vida? Aquela sensação de estar sendo deixado de lado, desprezado ou recusado?… Sensação essa, aliás, nada confortável e que, além de produzir feridas emocionais, tende a cutucá-las toda vez que o mesmo sentimento se instaura.

Como tudo o que vivenciamos tem raiz em um aprendizado baseado em experiências anteriormente vividas, a tendência é que comportamentos e sentimentos se repitam diante de situações semelhantes ou parecidas.

Estudos revelam que a dor do sentimento de rejeição é ativada nas mesmas áreas do cérebro que as dores físicas, doendo tanto em termos neurológicos que as reações se assemelham.

Por nossa natureza social, a necessidade de viver em grupo, de pertencer a tal é fundamental e quando nos sentimos rejeitados, excluídos do meio, essa necessidade é desestabilizada e a desconexão promovida causa dor emocional. Sentir-se sozinho ou desconectado após uma rejeição causa impactos em nossos comportamentos. A tendência é piorar o quadro, utilizando o isolamento como mecanismo de defesa, buscando assim evitar novas experiências de recusa. E quem se isola se prejudica; luta contra o enfrentamento necessário à sobrevivência, e nesse caso, por ser portador das sensações desagradáveis da rejeição, se torna má companhia para si mesmo (vai reprisar sensações, sentimentos e situações na mente, reforçando-os de modo negativo, já que não está se permitindo opiniões e intervenções à volta; se limita ao seu próprio achismo).

Uma pessoa que sofre uma situação de rejeição nos primórdios de sua vida, intencional ou não, tende a registrar aquela experiência e a desencadear um processo de autodesvalorização, que a torna vulnerável a seus próprios sentimentos e percepções do mundo a volta. Acredita não ser aceita como é, e isso se torna um obstáculo em seu desenvolvimento e em suas relações, porque se sente internamente rejeitada, interpretando tudo o que acontece ao seu redor através do filtro de sua ferida emocional instalada, sentindo-se rejeitada em situações em que, na verdade, não é. Há um risco eminente de supor rejeições, de se sentir recusado, excluído e descartado em circunstâncias que isso não está verdadeiramente ocorrendo. Pode entrar numa busca a todo custo da perfeição inexistente, tentando agradar a todos sem perceber seus próprios anseios e desejos, sem se atentar ao que lhe agrada, aquilo que lhes faz bem, e desse modo, estar sempre desconfortável frente aos outros.

Além da dor emocional, o bem-estar psicológico pode ser afetado. Sempre que nos sentimos vulneráveis, sensíveis, adoecidos, a tendência é buscar proteção de alguma forma, e a todo o custo. Isso pode nos deixar suscetíveis a sentimentos improdutivos e limitantes como a autopiedade, a baixa autoestima, a necessidade excessiva de atenção, a falta de amor próprio e a exigência descabível aos outros daquilo que nós mesmos não nos damos… amor, respeito, valor.

Não há nada de errado em buscar proteção em ambiente de relações em que nos sentimos seguros; por exemplo, uma pessoa que é rejeitada em um relacionamento amoroso, mas pertence a outros grupos sociais, não sentirá tanto quanto uma pessoa que foi rejeitada também pela família ou amigos. Se sofrermos uma situação de rejeição no trabalho e compartilhamos isso no ambiente familiar, a sensação de amparo ajuda no enfrentamento da dor emocional. Mas usar essas ferramentas não implica depositar no outro a minha responsabilidade de lidar com meus sentimentos e emoções.. com a minha dor. A intensidade da dor varia de acordo com as expectativas do indivíduo. Ao fim de um relacionamento, sofre quem estava mais envolvido e tinha mais expectativas, aquele que não queria o término.

Mas como se proteger de si mesmo? De sua própria sensação de reviver uma dor antiga em outro momento, outra situação, com outro cenário à volta? Da possibilidade de estar fazendo mais suposições do que estar verdadeiramente vivenciando rejeições? Como não se sabotar, rejeitando situações reais por medo da rejeição?

Sim, isso ocorre. Há pessoas que quando escolhidas, não acreditam e rejeitam a si mesmas, chegando até mesmo a sabotar a situação; e quando não escolhidas, se sentem rejeitadas pelos demais. Com o passar do tempo, a pessoa que sofre desta ferida e que não a cura pode se tornar rancorosa e passar a sentir muito ódio, fruto do intenso sofrimento vivido por ela.

O primeiro passo é reconhecer o sentimento em determinada situação, reconhecer sua primeira experiência real com a rejeição, analisando que em tal frase, em tal atitude, em tal comportamento alheio e externo, você vivenciou o sentimento e a sensação desconfortável da recusa. Aceitar a ferida como parte de si mesmo para poder liberar todos os sentimentos presos a ela. Se negarmos a presença do nosso sofrimento, não poderemos trabalhar para curá-lo. O enfrentamento da dor é o que nos fortalece e nos traz mudanças coerentes; não enfrentá-la significa aceitá-la e viver nela, por ela e para ela.

Agora faça uma leitura do momento, do ocorrido e da pessoa que lhe provocou a dor do desprezo, vai te ajudar a começar entender o que é seu e o que é do outro. Você foi rejeitado, excluído por não ser aceito, por não ser compreendido, ou por que o outro tinha expectativas equivocadas a teu respeito? E se não foi aceito por não atender a certas competências, isso quer dizer que não tenha outras desenvolvidas e a desenvolver? Pense em como foi na época do ocorrido e como hoje, depois de outras experiências e vivências (até as que repetiram comportamentos baseados na dor da rejeição), pode resignificar esse sentimento.

Dê atenção especial à autoestima, começando a se valorizar e a se reconhecer por si mesmo, sem precisar da aprovação dos demais. Atente para o que te faz bem, o que gosta, como gosta, sem egoísmos, mas priorizando suas aspirações e tornando importante o que acha, pensa e quer para si mesmo.

Uma vez aceita, o passo seguinte é perdoar para se libertar do passado. Em primeiro lugar, a nós pela forma como tratamos a nós mesmos, e em segundo lugar, aos demais, porque as pessoas que nos feriram provavelmente também sofriam de alguma dor ou experiência profunda de dor.

Reflita sobre outras situações vivenciadas, olhe por outro prisma… Aquela demissão pode ter ocorrido não por falta de competência, ou por não ser aceito naquele ambiente, mas sim porque suas competências não se encaixavam àquele cargo e deveriam ser mais bem aproveitadas em outras funções; ou ainda porque sua capacidade pode ter gerado em outros um medo de perder espaço na empresa.
Aquele relacionamento já não ia bem e ambos sabiam e sentiam, mas apenas um teve coragem de dar um basta quando viu que as expectativas estavam se diferenciando; o fato do outro decidir terminar a relação não é termômetro de sentimentos, nem mesmo parâmetro do quanto você “servia ou não” à ele. Muitas vezes respondemos às rejeições românticas procurando falhas em nós mesmos, lamentando por todas as nossas insuficiências, maltratando a nós mesmos quando já estamos para baixo. A maioria das rejeições românticas acontece por uma questão de desajuste e falta de química, estilos de vida incompatíveis, desejo por coisas diferentes em momentos diferentes ou outras questões como a dinâmica mútua. Culpar a nós mesmos e atacar a nossa autoestima só aprofunda a dor emocional que estamos sentindo e torna mais difícil a recuperação emocional. Mas antes de correr para se culpar por, culpar a si mesmo, tenha em mente o fato de que a rejeição não responde a razão; ela atua no campo das emoções, é um sentimento, uma sensação de momento que tira por vezes nossa capacidade de pensamento e interpretação de fatos. E vale lembrar que ela dói, mas também passa assim como a dor física. Logo o indivíduo em sofrimento pertencerá a outro grupo ou parceiro e perceberá que “a vida continua”.

Há vida além da sensação de rejeição!

 

Conclusão

Por fim, avalie sua auto-rejeição, em que aspectos da vida você não se aceita e despreza a si mesmo, a suas capacidades, condições e limitações. Você é um ser único e individual, com habilidades específicas; não suponha que é incapaz de pertencer a si mesmo e sentir-se pertencente ao universo a volta. Não se limite a experiências de rejeição, passando o resto da vida supondo que é ou está sendo rejeitado. E se for, perceba o sentimento, sinta a dor, chore, encare-a como algo passageiro e motivador de mudanças internas. Você é o que é e sente, e não o que o outro pensa a seu respeito ou sente em relação a você.

Comece a se tratar com amor e se priorizar. Preste atenção e dê amor a si próprio. O valor que merecemos é uma necessidade emocional imprescindível para continuar crescendo.

 

‘De alguma forma somos capitães da nossa alma.’
Nelson Mandela

 

The following two tabs change content below.
Dayane Castello

Dayane Castello

Natural de São Caetano do Sul/SP/Brasil, mãe, amante da expressão das subjetividades humanas e das escritas que expressam a grandeza das emoções. Master Coach pelo Instituto Edson Burger, Psicóloga com vivência em atendimento clínico, organizacional, sócio-comunitário e extensão em Terapia Cognitivo Comportamental. Palestrante, movida pela missão de motivar pessoas à mudança. Acredita que há algo maior que movimenta a vida; algo dentro de nós que basta apenas se permitir encontrar e explorar. Entende que viver é observar, conhecer, experimentar, tentar, fazer, acontecer e refazer quanto necessário, buscando sempre melhorar o seu eu e o mundo a sua volta.

Post do Autor Dayane Castello

Dayane Castello
Natural de São Caetano do Sul/SP/Brasil, mãe, amante da expressão das subjetividades humanas e das escritas que expressam a grandeza das emoções. Master Coach pelo Instituto Edson Burger, Psicóloga com vivência em atendimento clínico, organizacional, sócio-comunitário e extensão em Terapia Cognitivo Comportamental. Palestrante, movida pela missão de motivar pessoas à mudança. Acredita que há algo maior que movimenta a vida; algo dentro de nós que basta apenas se permitir encontrar e explorar. Entende que viver é observar, conhecer, experimentar, tentar, fazer, acontecer e refazer quanto necessário, buscando sempre melhorar o seu eu e o mundo a sua volta.