EXCESSOS COMPULSIVOS – A extrema ausência do “eu”

Vivemos o momento em que o ‘ter’ se sobrepõe ao ‘ser’. A necessidade de suprimir desconfortos internos nos faz cada vez mais consumir coisas, objetos e até sufocar pessoas a nossa volta, deixando de explorar o essencial, a potente capacidade do que somos e temos a oferecer a nós mesmos e ao mundo a nossa volta.

 

O verbo ser significa ter uma identidade, ter características intrínsecas, possuir particularidades; algo individual, único e exclusivo. O verbo ter significa possuir, estar na posse de, receber; passar a ser dono, estar em gozo de algo. Note que há uma grande diferença nessas definições. Alguém pode ser belo ou ter beleza; pode ser rico ou ter riquezas; pode ser feliz ou ter felicidade. Um conceito implica algo próprio, que ninguém pode roubar ou lhe tirar, enquanto outro implica em algo externo, temporário e passível de instabilidades já que não há garantia de permanência. O que eu tenho agora, hoje, já, posso não ter daqui a instantes, meses, horas, anos; já o que eu sou ninguém além de mim mesmo tem o poder de tocar e mudar.

O ser humano por sua natureza é norteado por questões existenciais constantes. Estamos sempre buscando respostas para entender quem somos, a que viemos, qual nossa missão, ou questões similares a essas. Essa ‘busca interior’ gera por vezes uma sensação de vazio, um vazio de alma, no campo das emoções e sensações. Como mecanismo de defesa psíquica, instinto natural para nos proteger de possíveis dores e desconfortos, tendemos a buscar suprir esse vazio com coisas e situações externas, excessos não saudáveis e até destrutivos quando se tornam vícios e entramos num processo patológico.

O fato de viver em um mundo consumista que apregoa o “quanto mais melhor” corrobora para comportamentos compulsivos: o impulso de repetir comportamentos, não resistindo à essa repetição; passamos a comprar, adquirir, querer ter coisas em excesso e sem necessidade. Compramos coisas de comer e acumulamos em nosso corpo peso extra; compramos coisas que não faremos uso e largamos isso em algum lugar de casa ou do escritório.. compras à toa que viram tralha, entulho as quais ainda justificamos conservar por ter valor sentimental (uma bela forma de supressão das emoções que estão por trás desse comportamento); queremos ouvir e ter das pessoas a nossa volta mais do que podem ou querem nos oferecer, simplesmente porque nada sacia, a busca é sempre por algo a mais, achando que assim, com excessos, supriremos o vazio interno.

O medo de perder lembranças e a sensação de estar controlando o futuro, em que poderá precisar disso ou daquilo, dessa ou daquela pessoa, são sentimentos que podem estar por trás dessa excessiva necessidade do ter, desses exageros e do consumismo. As redes sociais são prova disso.. ‘eu preciso ter 1000 (mil) amigos’, assim, ‘nunca serei ou estarei só’, talvez seja essa a ideia subconsciente. Entra aí a perigosa transferência de responsabilizar outros pelo o que sentimos, de terceirizar a missão de “nos fazerem felizes”.  Acredito que cabe aqui um velho dito: ‘mais qualidade e menos quantidade’; não é o muito, mas o essencial.

Quando perdemos o controle a volta, acumulando excessos e entulhos na vida, acabamos perdendo o controle interno também. A busca por preencher o vazio interior se torna desgastante e frustrante porque mesmo com toda a tentativa, com tudo o que compramos e consumimos de montão, com todo esforço para manter pessoas a volta e agindo como queremos e achamos que deve ser, ele continua ali e parece que cada vez mais amplo, um buraco ainda maior sobrecarregado pelo desgaste dessa intensa busca. Os transtornos físicos e emocionais moram em lugares sobrecarregados de bagunça e coisas que você não usa, simplesmente porque não era exatamente o que estava à procura.

O primeiro passo para solucionar essa sensação de vazio é entender que o que você procura e busca não está fora, não é algo externo, mas está dentro de você, residindo em suas emoções, aspirações e em sua essência. O autoconhecimento é primordial; precisamos explorar nosso ‘eu’, não mais sentir a própria ausência ou saudades de nós mesmos, sendo sufocados por tanta carga, excesso e informação externa. Reconhecer nossas habilidades, limitações, sensações e percepções.. o que faz nossa alma sentir-se em paz, satisfeita.. onde vou empregar o que tenho a oferecer, em que vou investir minhas energias que as fortalecerá e não as desgastará. Encontrar a missão que faz o nosso coração bater mais forte, compreender com o que sonhamos, desejamos, quais nossos projetos e objetivos.

Uma ferramenta positiva nessa busca interior, nesse encontro com o ‘eu’, é a espiritualidade. Escolha um momento do seu dia para se retirar, estar só, meditar, fazer uma prece, uma oração, mergulhar em seus incômodos e desejos, partilhando consigo mesmo e com aquilo que acredite como fonte de um poder além-humano. Alimentar a alma não se trata apenas de fé e esperança, de pensar positivo e focar no que é bom, mas também de ter esse momento só seu, exclusivo e único diário.

Aproveite agora para limpar os entulhos, as tralhas, os excessos. Veja o que lhe serve e é passível de ser usado diante do que almeja, e dispense o resto; faça isso externamente, nos ambientes que habita, aproveitando essa simbologia para eliminar também internamente o que não lhe é útil, o que não lhe serve ou cabe mais.

Os excessos, a bagunça a sua volta e dentro de você impedem que você viva da maneira que deseja e que seja a pessoa que gostaria de ser. Não permita que excessos tomem o espaço que é seu, só seu. Não se sufoque nem mesmo sufoque suas relações com muitas quantidades e pouca qualidade. Pense na qualidade do que tem a oferecer e do que tem a receber; desfoque da quantidade e deixe de acreditar que é o volume que define o valor. Coisas simples, pequenas, podem ser extremamente preciosas e mais valiosas do que coisas aparentemente grandes que enchem apenas os olhos.
Sua sensação de ausência não é de coisas ou pessoas, mas sim de você mesmo. Não deixe seu ‘eu’ solitário, querendo supri-lo antes de tentar entender do que ele realmente precisa.. sua atenção!

Para desentulhar sua vida você só precisa do seu bom senso e autoconfiança (você é a pessoa mais capaz de se compreender). Agarre-se na ideia de uma vida melhor enquanto executa essa limpeza. Defina qual utilidade quer dar a cada espaço reconquistado. Faça a limpeza no tempo presente, não no passado nem no futuro, e lembre-se que os excessos não somem de uma hora para outra, mas que quanto antes melhor.

Agora só ficar atento para os entulhos não voltarem!

 

Chega um tempo em que precisamos conhecer melhor o nosso
outro lado, o de dentro. É lá que repousam nossas verdades.

Simone Marçal

 

 

 

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Dayane Castello

Dayane Castello

Natural de São Caetano do Sul/SP/Brasil, mãe, amante da expressão das subjetividades humanas e das escritas que expressam a grandeza das emoções. Master Coach pelo Instituto Edson Burger, Psicóloga com vivência em atendimento clínico, organizacional, sócio-comunitário e extensão em Terapia Cognitivo Comportamental. Palestrante, movida pela missão de motivar pessoas à mudança. Acredita que há algo maior que movimenta a vida; algo dentro de nós que basta apenas se permitir encontrar e explorar. Entende que viver é observar, conhecer, experimentar, tentar, fazer, acontecer e refazer quanto necessário, buscando sempre melhorar o seu eu e o mundo a sua volta.

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Dayane Castello
Natural de São Caetano do Sul/SP/Brasil, mãe, amante da expressão das subjetividades humanas e das escritas que expressam a grandeza das emoções. Master Coach pelo Instituto Edson Burger, Psicóloga com vivência em atendimento clínico, organizacional, sócio-comunitário e extensão em Terapia Cognitivo Comportamental. Palestrante, movida pela missão de motivar pessoas à mudança. Acredita que há algo maior que movimenta a vida; algo dentro de nós que basta apenas se permitir encontrar e explorar. Entende que viver é observar, conhecer, experimentar, tentar, fazer, acontecer e refazer quanto necessário, buscando sempre melhorar o seu eu e o mundo a sua volta.