Cada pessoa tem o direito de amar e ser amada por sua livre escolha.

Nesse lindo mês das mulheres uma narrativa de história verídica de superação e amor de uma cliente e amiga.

Relato de Vanusa descrevendo trechos da história de vida com relatos de como se aceitou verdadeiramente:

Hoje, graças a Deus, muito se tem falado, esclarecido e debatido entre os diferentes aspectos sobre uma mulher se apaixonar por outra. Mas comigo, naquela época, era um verdadeiro tabu até mesmo em casa.

Estávamos em 1980 e eu tinha 26 anos, tinha acabado de sair da faculdade; para meus pais a possibilidade de ter uma filha homossexual era impossível.  Como tinham feito tudo certo com a educação das filhas,   isso seria uma história de fracasso. Mas a história de fracasso era minha por não ser capaz de sustentar o modelo de um ser feminino com traços leves, fragilidade e delicadezas. Era uma vida de teatros com tantas máscaras que já não aguentava mais. Era uma guerra interna e silenciosa para o mundo, mas enlouquecedora para mim.

Comecei a procurar ajuda com a terapia, com  pesquisas  procurando se havia mais mulheres como eu.

E sempre acabava escutando a mesma coisa, “Ser mulher é viver dignamente, e você só está passando por uma fase transitória, pare e pense você é uma mulher branca, classe média estudada e bilíngue que acaba de sair da faculdade, é claro que está confusa.” Como se aquelas características não pertencessem a homossexualidade.

Mas sempre me perguntava “por que duas mulheres não podem viver uma relação frequentemente de amor?”

Então resolvi conversar com minha irmã mais velha, que apesar de suas tentativas frustradas de me levar para bailes e me apresentar os irmãos e amigos de seus namorados, era minha irmã.

Quando comecei a falar parecia que não queria me ouvir, e logo começou a coagir-me em sua própria argumentação. Você é magra, bonita, inteligente vai jogar tudo isso fora e vai querer ser conhecida como a única sapatão da cidade? Você já pensou como papai vai ficar? Você pode até despertar desconforto, ódio ou desejo de vingança nos outros. Relembrando que estamos no ano de 1980 e estávamos numa ditadura e isso também pesava. Para acalmar os ânimos fingi que entendi e que concordava, mas por dentro minhas questões continuavam; se as mulheres lutam por igualdade, compartilham conquistas e sonham com uma liderança feminina, porque não a escolha de quem amar independente do sexo?

 Anos depois resolvi marcar com uma psicoterapeuta da cidade vizinha, e foi a última. Na consulta me perguntava se eu sabia ou teria descoberto quando começou a desenvolver o “homossexualismo.” Em suas análises já sentenciava que ser hétero é o desenvolvimento normal e a homossexualidade seria um desvio ou falha desse desenvolvimento.

Resolvi cair com a cara no serviço como arquiteta e me manter ocupada, mas como morava em uma cidade pequena e não tínhamos internet na época, comecei a mandar currículos para amigos que foram para capital. Sonhava em construir belos projetos que fizessem diferença numa cidade grande.

E assim foram passando os anos, muitas mudanças com o Brasil e também com nossas vidas. Papai veio a falecer e minha irmã casou-se, no começo dos anos 1990. Decidi falar para minha irmã que lhe daria a resposta final de uma conversa que começamos a mais de dez anos. Mostrei minha coragem de jogar tudo fora, poderia ser objeto de calunia, ridicularizarão e humilhação o que isso significa? Que não viveria mais seguindo fluxos…quando surgiu a oportunidade de sair do interior e ir para Capital.

Chegando a um lugar novo e com tantas pessoas percebi que ninguém  se incomodava com minha vida.

Fui trabalhar em uma grande construtora e almoçava todos os dias em um pequeno restaurante. Foi onde conheci Valéria, que sempre sentava no mesmo lugar e começamos a conversar, surgindo uma linda amizade. Começamos a sair para shopping após expediente e cinema de vez em quando.

Adorava passar horas conversando sobre a inconstante importância de refletir as adversidades de questões femininas e discutir ações efetivas de combate de toda e qualquer forma de agressão sobre a mulher. Não via o tempo passar e eu me empolgava tanto que um dia num impulso ela se esticou e me beijou.  Senti ali o despertar de uma Vanusa que eu havia guardado em algum lugar em mim. Uma olhando para outra sem falar nada ela sussurrou sorrindo que eu deveria ser advogada e não arquiteta.

E assim foi o inicio de nosso relacionamento, para os outros eram duas amigas que resolveram dividir o aluguel, mas em casa éramos um casal normal que até discutia,  mas se amava muito.

Um dia resolvi levá-la para conhecer minha mãe na minha cidade natal. Para minha surpresa minha mãe havia feito um banquete e logo que chegamos  minha mãe me chamou de canto e falou que tinha amado minha companheira. Eu só tive a reação de falar mamãe então a senhora sabe? E ela respondeu rindo que sempre soubera, que eu não era como minha irmã, e sempre iria me amar independente de minhas escolhas. A frase de mamãe que mais marcou foi existe jeito certo de amar. Chorando a abracei com todo meu ser e falei que ela é uma sábia. Sai de minha cidade com uma página virada de minha vida, pronta para ser quem nasci para ser.

Sempre com a compreensão e apoio de Valéria, resolvi cursar uma nova faculdade para lutar pelas mesmas questões que eu passei um dia. Hoje depois de tantos anos de minhas questões, vislumbro um país que aceita mais o que parece uma diversidade, porem só é mais uma forma de amor.

“Vanusa e Valéria estão juntas a quase trinta anos, de cumplicidade e apoio mútuo e Vanusa hoje com 65 anos defende como advogada casos e conflitos de mulheres independente de gênero.”

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Dra. Eliana Zenaro

Dra. Eliana Zenaro

Fisioterapeuta formada pela Universidade Paulista-UNIP, pós-graduada em Uroginecologia e Saúde da Mulher pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto-FAMERP; Dermatofuncional e Estética Facial e Corporal com ênfase em Drenagem Linfática e Pós Operatório de Cirurgia Plástica pela Faculdade do Senac. Máster Coach em Emagrecimento consciente e relacionamentos pelo HCII e coach pelo Instituto Edson Burgue em formação em evolução continuada progressiva EPC pelo instituto Magno Novari. Objetivo: trabalhar com pessoas em todas as faixas etárias, em grupos ou individuais. Missão: ser facilitadora de crescimento o maior número de pessoas a tomar a decisão em despertar todo seu potencial.

Post do Autor Dra. Eliana Zenaro

Dra. Eliana Zenaro
Fisioterapeuta formada pela Universidade Paulista-UNIP, pós-graduada em Uroginecologia e Saúde da Mulher pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto-FAMERP; Dermatofuncional e Estética Facial e Corporal com ênfase em Drenagem Linfática e Pós Operatório de Cirurgia Plástica pela Faculdade do Senac. Máster Coach em Emagrecimento consciente e relacionamentos pelo HCII e coach pelo Instituto Edson Burgue em formação em evolução continuada progressiva EPC pelo instituto Magno Novari. Objetivo: trabalhar com pessoas em todas as faixas etárias, em grupos ou individuais. Missão: ser facilitadora de crescimento o maior número de pessoas a tomar a decisão em despertar todo seu potencial.